A vontade de sumir soma-se a minha dor.
A fumaça me toma os olhos.
Preciso dormir.
Reabro a gaveta, como se achasse nela as respostas.
O cigarro esfumaça minha boca, esta nada condizente com a minha condição.
Reviro os papéis da resenha feita a punho de quando saboreei cada pedaço de Ernest.
Em meio a chaves antigas e singelas agendinhas usadas, avistava a foto de Gabriela.
Prever a partida de Gabriela foi fácil.
A despedida assim que seus olhos verdes avistassem o dia seria confirmada, como de praxe.
Eu ainda ficava a admirar as belas pernas de Gabriela, quando buscava o silêncio estonteante.
Seu sorriso era como seu envolvente abraço.
Seu peito, macio, recaía sobre meus olhos como mãos quentes ajudam a espantar o frio.
De estatura mediana, mas com o ar melancólico.
Se sua perfeição seria a perfeição perfeita, eu já não sabia mais.
Só sabia de clamar, adorar e revisitar.
O luxuoso bar da esquina nunca fora tão convidativo e o envolto dele também.
O senhorio comemorava, até onde minhas faculdades sensitivas permitiam, qualquer vitória.
As manias das pessoas davam um encanto diferente àquela despedida.
Talvez fosse momento mesmo de eu fazer como eu sempre quis.
Mas a minha teimosia foi bancada pela minha memória falha.
Ao avistar o relógio, dei-me conta da fuga repentina dos momentos inescapáveis.
Martirizei-me por ela não saber da minha previsão.
Inclusive aquele café da manhã posto ao lado de sua cabeça indicaria pouco do muito previsto.
“Sombrio”, era esse meu medo.
E, por reflexo da minha tolice, não bebi da última rodada logo depois que ela se foi.
A primeira rodada aconteceu assim que a vi pegar o táxi rumo ao sudoeste.
Ela queria viajar, eu acho.
O gole gélido da cerveja, cujo frescor podia me fornecer a verdadeira sensatez, já me afagava.
O colo de uma aventura era a necessidade para interromper a recordação de tais pares de coxas.
Insistia em não dormir para, numa situação qualquer de mais um fim de noite, despencar no mundo insone dos sonhos macabros.
Insistir na mais perfeita maluquice amorosa.
Logo com ela, Gabriela, a mais bela das telas vivas.
Das mulheres, a menina.
Daquelas, a bela.
De repente, quando a vontade parece se engrandecer e subtrai minha necessidade de permanecer vivo, dedico o meu tempo às indagações inaudíveis e em terremotos internos de magnitude significante. Doou meu espaço fragmentado a quem desdenha dele e, mesmo assim, sigo abstraindo a minha natureza infantil de ser um pouco feliz: a felicidade, não obstante daquele antro de amor, reside na marginalidade da igualdade e, de forma improvável, reúno minha estagnação ao prólogo da beleza de uma dama qualquer.
Ora, se meu melhor não é suficientemente satisfatório para aqueles que de mim conseguem arrancar tamanha manifestação de vida, não vejo como isto seria válido para outros tantos, nem mesmo para qualquer peça deste coletivo salvo pela extrema condição de espécie. Por isso, ao olhar-me no espelho d’água, busco somente o reflexo imaginário e não somente o real daquilo tido como a exímia sintonia entre coração e mente.
Mentir, pra mim, logo (também) pra mim, não me faz sentir o fel da condenação amorosa e ainda enfio, mesmo com solavancos irreais, para logo abaixo de minha satisfação racional oriunda de um conto mentiroso, ludibrio a verdade com golpes precisos e o faço quando bem desejo. Antes o afogamento na minha loucura insensata do que na própria leveza de um estado súbito, daqueles importantes e classificados como a mais sublime sensação mais próxima de um voo solitário.
Dos bandos, vejo ressurgir a verdade como afrontamento imoral de uma apócrifa aventura circense. Seus papéis são dados como quem despeja maquiagem na pele do trapezista ou se coloca a rir a cada sapato de bico largo e longo do sapato do palhaço. Desnorteio tais sorrisos como uma saída à francesa, deixando-os a imaginar como deveria despejar minha raiva na tradução lírica do imenso destino de um ser presente em minha vida. Presenteiem-se antes de se fazerem presentes e saberão do que a satisfação plena conseguirá suster a si própria. Enlouqueçam antes de buscar a sanidade e tomem uma dose de esquizofrenia por dia, se não quiserem morrer na areia movediça do lamaçal rotineiro do cotidiano.
Gesso e ventilador no teto e madeira no chão. Cadeira e guarda-roupa à direita, criado-mudo à esquerda. Parede às costas, ao arrebite do nariz uma televisão. Uma bancada de granito. Uma cômoda. Os incomodados nem sequer pestanejam diante disso. Engolem. Tomam-me por uma mera convenção, um objeto de suas pradarias em meio aos mamemolares e inócuos troncos das árvores.
E agora perguntam como filhos dos filhos gravam filmes num toque, num devaneio, num prisma de análise vexatório e, completamente, calcado em demagogias momentâneas. Grudo minha vontade onde bem cabe a fixação das ventosas pegajosas contidas no tenro de meus dedos. Faço-o de bom grado, inclusive quando o executo na despretensão.
De relance, o passado infame se conglomera a minha frente e não se coloca mais como obstáculo – ou se coloca, caso minha vontade por uma arbitrariedade seja instaurada. Minha frente, desde aquele fadítico dia onde Gabriela deixou a barra do vestido para fora do táxi e dispensou o motorista no carregar de suas malas, é apenas um passo rumo ao comando menos trajado para a mania tola de voltar-me ao lar do desespero mórbido, do enfadonho retalho mal costurado na tecelagem amargurada da solidão. Fibrosa, visto-a mesmo assim. Mas a colcha não mais se estende por entre meu corpo e o solo de onde se faz os pés desta cama sempre pronta a servir meu deleite me leva a vislumbrar, ao menos por esses dias, o meu recanto exclusivo.
Agora, dedico-me aos sinceros devaneios de minha vastidão anunciada. E, ah, posso enfim prover minha sinceridade estampada em tantos outros carnavais, bem como saber que dela, falta não sinto, mas como arde o desejo de vingar-me e contar a mais sorrateira verdade: o fiz tudo por medo.















